4. BRASIL 29.8.12

1. BRASIL CONFIDENCIAL - "A JORNADA EXTRA DE AYRES BRITTO "
2. A VOLTA DO CARLISMO
3. EM NOME DO PAI
4. ESCONDERAM FHC
5. TESOUREIROS EM APUROS
6. O HOMEM DE 133 BILHES DE REAIS
7. MENSALO FOI COM O NOSSO DINHEIRO
8. QUEM SO OS GREVISTAS QUE DESAFIAM O BRASIL

1. BRASIL CONFIDENCIAL - "A JORNADA EXTRA DE AYRES BRITTO "
por Marta Salomon 

Nos intervalos do julgamento do mensalo, o presidente do STF negocia os salrios dos servidores do Judicirio. Ayres Britto submeteu a sindicalistas a proposta do governo, de reajuste de 15,8%, a ser pago em trs parcelas, no mesmo modelo da oferta feita a outras categorias em greve. Prometeu buscar mais uma rodada de conversa com a presidenta Dilma Rousseff. Mas o governo no quer negociar mais nem cr em prejuzo com a paralisao de servidores dos tribunais. Decises recentes do Superior Tribunal de Justia contra a operao-padro e a favor do desconto de salrios de grevistas reforam a posio de Dilma.


2. A VOLTA DO CARLISMO

ACM Neto resgata av na campanha, apresenta-se como carlista moderno e passa a liderar as pesquisas  Prefeitura de Salvador
Pedro Marcondes de Moura 

Na batalha pela prefeitura de Salvador, o deputado federal ACM Neto, do DEM, resolveu, enfim, valer-se politicamente do status de neto de Antnio Carlos Magalhes. Se na ltima disputa pela capital baiana a sua campanha se esforava em desvincul-lo do patriarca da famlia, a estratgia neste pleito parece ter mudado. Em entrevistas ou atos pblicos, o candidato faz questo de exaltar o legado do ilustre av, que morreu em 2007. No lanamento de sua pr-candidatura, Neto e correligionrios no dispensaram citaes a ACM  principal face do carlismo , que ditou por dcadas os rumos das urnas do Estado da Bahia, alm de influenciar decises de presidentes at a gesto do tucano Fernando Henrique Cardoso. ACM Neto tambm aproveitou a ocasio para ler, com a voz embargada, um trecho de uma carta repleta de elogios enviada, em 1969, pelo escritor Jorge Amado ao av, na poca prefeito da capital baiana. Em seguida, lanou-se na disputa  sucesso municipal por amor a Salvador. Estou diante do maior desafio da minha vida, declarou.

ESTRATGIA - Para vincular-se  imagem do av, ACM Neto at chorou ao mencion-lo em comcio
 
Nesta campanha municipal, ACM Neto aproxima-se do legado de Antnio Carlos Magalhes num cenrio poltico bem diferente da ltima disputa, em 2008. Na poca, o carlismo vivia o pice de sua derrocada junto aos soteropolitanos. Fileiras de antigos correligionrios migravam para siglas da base aliada aos governos federal e estadual, comandados pelo PT. Bem avaliado, o governador Jaques Wagner era um eficiente cabo eleitoral. No  toa, ACM Neto despencou da primeira  terceira posio durante aquela campanha. Hoje, apenas 16% dos eleitores de Salvador consideram a gesto estadual petista tima ou boa, reflexo do aumento dos ndices de criminalidade e de uma greve de mais de trs meses na rede pblica de ensino do Estado. J a administrao do prefeito da capital baiana, Joo Henrique Carneiro (PP), amarga avaliao ainda pior: 68% a consideram ruim ou pssima. Tamanho descontentamento popular  uma das explicaes para certa nostalgia dos tempos em que o grupo de Antnio Carlos Magalhes comandava a poltica local. 

AINDA NO DECOLOU - O petista Nlson Pelegrino  o principal adversrio de ACM Neto 
 
Agora lder nas pesquisas, com 40% das intenes de voto, 27 pontos percentuais  frente de seu principal adversrio, o advogado Nlson Pelegrino (PT), o deputado ACM Neto, ao mesmo tempo em que relembra as realizaes de seu av, apresenta-se como um poltico moderno, de 33 anos. Dessa forma, tenta desassociar sua imagem pblica de prticas clientelistas e autoritrias adotadas pela oligarquia comandada pelo velho Antnio Carlos Magalhes, conhecido pela generosidade com aliados e a intolerncia com os adversrios. Em 2008, o prprio candidato foi vtima de sua verborragia ao ver amplamente divulgado no horrio eleitoral um vdeo em que ameaava dar uma surra no ex-presidente Lula ao denunciar ser vtima de grampos da Agncia Brasileira de Inteligncia (Abin). Com a nova estratgia, Neto tem logrado xito.


3. EM NOME DO PAI

Filho de Lula, candidato a vereador em So Bernardo do Campo se apoia no bero do sindicalismo do PT e na popularidade do ex-presidente para tentar se eleger
Pedro Marcondes de Moura 

DE PAI PARA FILHO? - Marcos Lula, com 9 anos, ao lado dos pais, Marisa Letcia e Lula, durante a greve no ABC em 1980
 
Enquanto 105 candidatos pelo Brasil reivindicam o direito de adotar o apelido Lula em suas campanhas polticas, o empresrio Marcos Cludio da Silva  o Marcos Lula   o nico que pode oficialmente usar esse nome. Filho do primeiro casamento da ex-primeira-dama Marisa Letcia, ele no chegou a conhecer o pai biolgico, assassinado durante sua gestao. Aos 2 anos, Marcos Lula passou a morar com o ex-presidente, que o registrou e o criou como filho. Hoje, com 41 anos, tenta se eleger vereador pelo PT em So Bernardo do Campo, cidade da Grande So Paulo e bero do sindicalismo que levou um torneiro mecnico ao comando do Pas. De forma discreta, o ex-presidente tem se envolvido na campanha. At agora, participou de dois eventos. Na inaugurao do comit, apareceu de surpresa e discursou ao lado de outros polticos. Tambm esteve em um jantar fechado com a comunidade muulmana. Com ele no tem frescura, diz Marcos. Se for para pedir voto na rua, vai pedir. Mas ele tem que ajudar os candidatos a prefeito. No d para fazer vereador em cada cidade.
 
Ao volante de um Astra 2008, Marcos Lula chega adiantado para mais um compromisso de sua agenda poltica, marcado para as 15h30 do sbado 18. Ao contrrio do patriarca, famoso por cativar multides, a presena dele no altera a rotina nas imediaes do escado da rua Unidos do Anchieta, rea mais pobre do bairro Vila Euro. Crianas descalas permanecem jogando taco no meio da via. Perto dali apoiadores com bandeiras em punho o aguardam. Alm de militantes, a equipe da campanha, orada em R$ 300 mil,  formada por cerca de 50 funcionrios. Marcos Lula usa camisa com as mangas arregaadas, cala jeans e um sapato preto gasto. No dedo anelar da mo esquerda, a aliana da unio com Carla Trindade, me de seu filho de 16 anos. Legalmente divorciado, o casal reatou relaes em 2009. O semblante cansado do candidato revela a febre que o abateu na madrugada. Campanha  assim, tem de ir para a rua, diz, revelando um jeito tmido que destoa do estilo do pai famoso.
 
Na briga por uma cadeira na Cmara, Marcos Lula comparece, em mdia, a seis compromissos por dia, entre atos pblicos e reunies fechadas. Nos bastidores da campanha, trabalha-se para angariar de 5 a 7 mil votos, o que o colocaria entre os puxadores de voto do PT ao lado de Tio Mateus e Toninho da Lanchonete. Sua estratgia  intensificar aes em regies onde foi bem votado na eleio de 2008, marcadas em um mapa no QG da campanha. Com a candidatura impugnada devido ao grau de parentesco com o ento presidente Lula, ele obteve cerca de 2.900 votos, nmero prximo ao alcanado pelos vereadores eleitos. A gente soube que teve sees em que a pessoa ia votar e o meu nome no aparecia, conta. Assim como na campanha de 2008, o apoio do ex-presidente ao filho tem causado cime dentro do PT local. Quem participa com frequncia de atos da campanha  a me, Marisa Letcia, que mandou at adesivar o carro da famlia.
 
Mancando da perna esquerda  reflexo de uma deformidade de infncia que o obrigou recentemente a colocar uma prtese no quadril , Marcos Lula desce o escado da rua Unidos da Anchieta. L embaixo, uma kombi alterna nos alto-falantes o jingle da campanha com uma mensagem do ex-presidente: Elegendo o Marcos  como se vocs me dessem a oportunidade de provar que eu sei ser vereador, diz a voz de Lula. Guiado por militantes, Marcos percorre casas e comrcios. Sistematicamente, usa a mesma abordagem. De maneira tmida, pede licena, se apresenta falando baixo, entrega um carto de visita e despede-se com um aperto de mo seguido de um tapinha nas costas. Ao contrrio do pai, ele escuta mais do que fala e tem averso a palanques. Durante as quase duas horas em que permaneceu na regio, foi abordado por sete eleitores a respeito do ex-presidente. Na maioria das vezes, aps responder que Lula est liberado pelos mdicos para fazer campanha, o so-paulino Marcos Cludio tambm foi questionado sobre os rumos do Corinthians, time pelo qual torce o ex-presidente.
 
Por volta das 16h30, Marcos Lula parte para o corpo a corpo com comerciantes em outro bairro. Enquanto fala com os eleitores, um locutor narra, pelos alto-falantes de uma caminhonete S10 emprestada, a biografia dele.  apresentado como designer grfico, psiclogo e ex-diretor de Turismo e Eventos de So Bernardo do Campo, cargo que deixou para concorrer  eleio. nico dos cinco filhos de Lula a enveredar para disputas eleitorais, Marcos Lula brinca que sua iniciao na vida poltica se deu quando era criana. Nas greves do ABC comandadas pelo pai, ele era presena constante. Esteve, em 1980, no episdio do Estdio da Vila Euclides, em que helicpteros do Exrcito faziam rasantes enquanto Lula e outros sindicalistas discursavam. Na criao do PT, eu tinha 9 anos e ajudava a separar as fichas de filiao, diz. Questionado at onde almeja chegar, o filho do ex-presidente se esquiva: Tudo depende do momento poltico, responde baixinho.
 
"O Lula ajuda" - O filho mais velho do ex-presidente fala sobre a presena do pai em sua campanha e de seu futuro poltico:
 
ISTO  Quando o sr. percebeu que ia enveredar para a poltica?
 Marcos Lula  Acho que isso j est com a gente. Minha primeira participao poltica foi aos 4 anos, quando o meu pai era lder sindical. Na criao do PT, em 1980, eu tinha 9 anos e j ajudava a separar as fichas de filiao para mandar a So Paulo. Voc comea a trabalhar nos bastidores, ajudar na campanha.  um caminho natural.
 
ISTO  O ex-presidente Lula tem participado de sua campanha a vereador em So Bernardo do Campo?
 Marcos Lula  J est ajudando. Na inaugurao do comit da campanha ele esteve presente. Com ele no tem frescura. Se for para pedir voto na rua, vai pedir quando der. Mas ele tem de ajudar candidatos a prefeito. No d para fazer vereador em cada cidade. A minha me, que est mais tranquila, participa mais.
 
ISTO  E como  a participao dela?
 Marcos Lula  Minha me est sempre com a gente, participando de reunies. Mas ela no gosta de falar, de jeito nenhum.
 
ISTO  Ter o Lula como cabo eleitoral causa cime?
 Marcos Lula  D uma ciumeira at dentro do prprio PT, mas considero normal. Ns e eles (outros candidatos) vamos assimilando. Voc pode ver que a gente (os petistas postulantes  Cmara Municipal de So Bernardo) se trata muito bem.
 
ISTO  O sr. almeja outros cargos, como o de prefeito?
 Marcos Lula  Tudo depende do momento poltico. Isso  o que vai dizer se devo ser candidato a prefeito ou a deputado para continuar ajudando. Eu no penso em cargos, mas sim se posso ou no ajudar as pessoas.


4. ESCONDERAM FHC

Ausncia do ex-presidente nas campanhas eleitorais tucanas repete estratgia mal-sucedida no passado
Mariana Queiroz Barboza

 DISCRETO - FHC diz preferir acompanhar de longe, ao contrrio de Lula: "Nunca fiz (campanha)"
 
Em 2010, logo aps a terceira derrota seguida do PSDB para o PT na disputa pela Presidncia da Repblica, o candidato Jos Serra fazia, no comit de campanha dos tucanos, uma confisso de culpa. Reconhecia que ter deixado o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fora da propaganda eleitoral tinha sido um erro. Sem assumir o principal legado histrico do partido  os dois mandatos de FHC , o PSDB se apresentara ao eleitor vazio de identidade. Escondendo os princpios da era tucana, parecia no dispor de um programa de governo consistente para o Pas. Dois anos depois, apesar dos discursos, a estratgia do ocultamento se repete. FHC sumiu da campanha municipal de Serra e no aparece tambm nas mais importantes campanhas dos tucanos s prefeituras. Um frio pragmatismo parece estar por trs disso: A ttica de esconder seu smbolo  respaldada em pesquisas, afirma o consultor poltico Gaudncio Torquato. Evidentemente, do ponto de vista eleitoral a participao de FHC no  fundamental, porque no agrega novos votos. J Felipe Salto, professor da Fundao Getulio Vargas, acredita que, ainda que no aparea na tev ao lado dos candidatos, FHC est presente na campanha quando emite suas opinies em palestras como a que deu na Bienal no sbado 18, por exemplo. Sua postura  correta, porque deixa o partido se renovar, afirma.
 
Os tucanos evitam o constrangimento da deciso eleitoral alegando inapetncia do prprio FHC. O partido quer que ele aparea mais, mas ele tem uma agenda extensa de compromissos, diz Srgio Guerra, presidente nacional do PSDB. Na semana passada, questionado sobre a diferena que v entre o uso de sua imagem e a larga exposio que o PT tem dado a Lula, FHC foi na mesma linha: Ele (Lula) sempre fez isso. Eu nunca fiz. A preferncia por uma postura de estadista se contrape  inconvenincia de Lula, dizem os tucanos. Lula virou o palpiteiro geral do Brasil, d opinio at na Seleo de futebol, diz o deputado federal Eduardo Gomes. Nem todo mundo pensa igual. A exemplo de Aloysio Nunes, eleito para o Senado com 11 milhes de votos com o apoio da exibio diria de um vdeo estrelado pelo ex-presidente em 2010, o candidato  Prefeitura do Rio de Janeiro Otavio Leite pediu a FHC que gravasse um depoimento para sua campanha. Ele foi muito incompreendido em alguns momentos da vida pblica, mas hoje h um consenso de que se trata de um grande estadista, como a prpria presidenta Dilma reconhece, diz. Seu pedido foi prontamente atendido por FHC.


5. TESOUREIROS EM APUROS 

Julgamento do mensalo agrava a m fama dos arrecadadores de dinheiro para campanhas eleitorais e faz com que empresas hesitem em doar recursos para os candidatos 
Izabelle Torres e Alan Rodrigues

Nos ltimos anos, a reputao dos arrecadadores de dinheiro para campanhas eleitorais foi contaminada por suspeitas de negcios escusos.  medida que o julgamento do mensalo avana e documentos oficiais chegam  CPI do Cachoeira, a m fama dos tesoureiros s se agrava. Nesse cenrio de descrdito, empresas hesitam em fazer doaes. O resultado so arrecadaes pfias e uma crise generalizada nos cofres dos partidos polticos. Para driblar a resistncia  figura dos tesoureiros e o temor de os doadores se envolverem em novos escndalos, candidatos comearam a adotar estratgias emergenciais de sobrevivncia financeira. Essas mudanas incluem a substituio do procedimento de captao de recursos e a escalao de ocupantes de cargos pblicos para pedir dinheiro a empresrios.
 
A candidatura de Patrus Ananias (PT)  Prefeitura de Belo Horizonte  um exemplo da preocupao com a conduta dos arrecadadores. O petista criou um grupo gestor composto por trs pessoas para administrar a entrada e a sada das doaes e desconcentrar o poder no processo. Foi uma ideia para ningum ficar com excesso de responsabilidade e poder, explica Luiz Alberto Vieira, encarregado de fazer os pagamentos. O mesmo aconteceu em cidades como Salvador, Macei e Porto Alegre. Em uma estratgia um pouco mais arriscada, outros candidatos optaram por abolir a figura do tesoureiro e nomear um grupo financeiro, com poderes formais de passar o pires. A coordenao desse grupo fica, geralmente, nas mos de aliados que ocupam cargos pblicos, acostumados a tratar de contratos e licitaes com empresas privadas.  uma forma de facilitar o percurso, j que a pessoa que contratou sabe as empresas que um dia j beneficiou, diz um ex-tesoureiro tucano.

ESCASSEZ - Dlson Peixoto, tesoureiro da campanha de Humberto Costa (Recife), e Chico Macena, arrecadador de Fernando Haddad (So Paulo): dificuldades para captar recursos

No Recife, Humberto Costa (PT) optou por Dlson Peixoto, que preside a Empresa Pernambucana de Transporte Intermunicipal desde 2011. Nos ltimos anos, ele foi o responsvel por concesses, permisses e autorizaes para o funcionamento do milionrio mercado de transportes do Estado. Dlson integrava a cota do PT no governo Eduardo Campos (PSB). Ele deixou o cargo no dia 10, mas ainda mantm uma sala no rgo. O candidato a prefeito de Belo Horizonte, Mrcio Lacerda (PSB), criou um grupo para administrar os recursos e colocou no comando um ex-funcionrio pblico. Marcelo Abi Saber foi secretrio de Assuntos Institucionais e, antes disso, tinha sido o brao direito do prefeito na empresa Batik, fornecedora de equipamentos de telecomunicaes. Somos uma equipe e apenas coordeno os trabalhos. Acho que, quando um candidato est liderando as pesquisas, as dificuldades de arrecadar so menores, diz.
 
Independentemente da estratgia usada para driblar a crise e do temor das empresas em contribuir com candidatos, as doaes ainda pingam a conta-gotas e as metas superestimadas de receitas parecem cada vez mais inatingveis. Para se ter uma ideia, apenas 2% das previses de arrecadao declaradas  Justia Eleitoral chegaram s contas bancrias dos comits financeiros no primeiro ms da campanha. As trs maiores candidaturas da capital paulista ilustram essa dificuldade. Juntas, elas calculam arrecadar R$ 218 milhes para as despesas deste ano. At agora, s conseguiram R$ 3 milhes. Chico Macena, arrecadador da campanha do petista Fernando Haddad, captou at agora R$ 1,4 milho dos R$ 90 milhes previstos. Nem lderes de pesquisas escapam desse cenrio. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB) calculou que sua campanha custaria R$ 25 milhes, mas a arrecadao atingiu pouco mais de 10% disso. Esse pode ser o incio de uma nova fase da poltica brasileira, na qual os empresrios comeam a se distanciar dos caixas de campanha para zelar pela imagem das empresas, diz Victor Trujillo, coordenador do curso de marketing eleitoral da ESPM.


6. O HOMEM DE 133 BILHES DE REAIS

Bernardo Figueiredo gosta de viver na roa, no suporta gravatas e chegou a ser expulso da escola. Mas ele  o escolhido por Dilma para cuidar dos bilionrios investimentos em rodovias e ferrovias
Marta Salomon

 VIDA NO CAMPO - Figueiredo gosta mesmo  de cuidar das vacas e dos cavalos de sua fazenda
 
Um prdio pequeno, sem placa  porta, na regio central de Braslia, serve de gabinete improvisado para o economista Bernardo Figueiredo, alado a posto-chave no governo Dilma Rousseff. Nomeado presidente da recm-criada estatal Empresa de Planejamento e Logstica, a EPL, Figueiredo ser uma espcie de superministro, encarregado de coordenar os investimentos em infraestrutura de transportes. Ele comandar projetos estimados em R$ 133 bilhes, dinheiro a ser investido por meio de parcerias do governo com a iniciativa privada em obras de rodovias e ferrovias. Eventualmente, a estatal ser scia nesses negcios. O valor dos investimentos poder alcanar R$ 180 bilhes, com o anncio, em breve, da segunda etapa de concesses de portos e aeroportos. O nmero no est fechado, mas  uma estimativa, baseada nos investimentos necessrios, diz Figueiredo.
 
Mineiro de Sete Lagoas, 62 anos, o assessor de Dilma para negcios bilionrios cultiva gostos extravagantes  segundo define ele mesmo , como torcer pelo time do Bangu, no Rio de Janeiro, e pela Portuguesa, em So Paulo, alm do Cruzeiro, em Minas Gerais. No gosta de usar gravata. Tento no usar: me sinto mal, como se fosse ser enforcado, explica. S quando o protocolo exige, Figueiredo pe terno e dispensa o figurino predileto, de homem da roa, apreciador de cigarros de palha e dedicado a cuidar de vacas e cavalos na fazenda de 500 hectares (cinco quilmetros quadrados), onde mora h mais de uma dcada, nos arredores da capital, com a segunda mulher e parte dos sete filhos. Foi na fazenda que o novo presidente da EPL passou os quatro meses de quarentena, aps ter seu nome rejeitado pelo Senado para um segundo mandato  frente da Agncia Nacional de Transportes Terrestres, numa derrota imposta  presidenta Dilma Rousseff por 36 votos a 31, em maro. Fiquei quatro meses escondidinho l, conta. Impedido legalmente de trabalhar, ele saa da fazenda para participar dos debates do grupo encarregado de mudar o rumo do governo na rea de transportes, abatida por escndalos e baixo investimento. Foi fcil me cooptar:  um desafio, diz o executivo.

PONTE - Responsvel pela coordenao do PAC, Maurcio Muniz foi quem levou Figueiredo para trabalhar no governo
 
At 2018, prev, o plano de concesses  iniciativa privada dever mudar a estrutura de transportes do Pas, com mais dez mil quilmetros de ferrovias e 7,5 mil quilmetros de rodovias integradas a portos e aeroportos. Nesse prazo, o executivo tambm espera ver nos trilhos o trem-bala ligando Rio de Janeiro, So Paulo e Campinas, projeto polmico do qual se tornou o principal defensor nos ltimos anos. Os prazos do plano lanado por Dilma Rousseff so apertados. Desafiadores, mas factveis, prefere Figueiredo, emendando o ditado ouvido do av, na roa: Carro apertado  que canta. Entre as tarefas que o cargo lhe reserva est zelar pelo cumprimento do cronograma. A voz mansa do roceiro ajuda na negociao, mas foram os conhecimentos na rea de transportes que conquistaram a confiana da presidenta. O economista foi chamado a trabalhar na Casa Civil em 2005 como assessor especial para monitoramento de aes na rea. Foi levado por um de seus grandes amigos no governo, Maurcio Muniz, hoje responsvel pela coordenao do Programa de Acelerao do Crescimento, no Ministrio do Planejamento. O PAC seria lanado dois anos depois. Figueiredo conta que no escapou da folclrica zanga da chefe. Levei muita bronca justa, de uma pessoa determinada, que gosta que lhe apresentem informaes consistentes.
 
Na passagem pela Casa Civil, participou dos primeiros estudos para o embrio da Empresa de Planejamento e Logstica, mas a ideia no foi adiante. Identificada a falta de projetos e de dados, o presidente Lula pediu estudos para recriar o Geipot, conta, lembrando da extinta Empresa Brasileira de Planejamento de Transportes, criada nos anos 60 como grupo executivo e fechada no governo Fernando Henrique Cardoso. O antigo Geipot marcou o comeo da carreira de Figueiredo na rea de transportes. No incio dos anos 70, o homem dos negcios bilionrios estudava economia na Universidade de Braslia e conseguiu um estgio no Geipot. Em 1973, passou em primeiro lugar no concurso para a empresa, onde chegou a chefe de projetos. O currculo de Figueiredo registra a passagem por estatais e concessionrias de ferrovias, inclusive a Amrica Latina Logstica, uma das maiores empresas do setor. Na iniciativa privada, tambm dirigiu a Associao Nacional dos Transportadores Ferrovirios, que representava interesses das concessionrias fiscalizadas depois por Bernardo Figueiredo, quando comandou a agncia reguladora de transportes terrestres. Sou um tcnico que atua h 40 anos com transportes e nunca trabalhou com outra coisa, diz, quando convidado a se autodefinir. A relao com ferrovias  anterior  carteira de trabalho. Os trilhos do trem passavam atrs da casa de Figueiredo em Sete Lagoas, a estao de trem ficava ao lado, e o apito da locomotiva marcou sua infncia, antes de se mudar para Braslia.

NO COLGIO - Figueiredo frequentou a mesma sala de Fernando Collor (foto) na escola pblica que reunia os filhos da elite brasiliense
 
A atuao de Figueiredo como fiscalizador das concessionrias de ferrovias no , porm, ponto pacfico na sua biografia. Ele foi questionado duramente pelo senador Roberto Requio (PMDB-PR) no ano passado, durante sabatina a que se submeteu como indicado por Dilma Rousseff para um segundo mandato  frente da ANTT. Requio apontou falhas no relacionamento com as concessionrias. Nem conheo a pessoa, disse sobre o senador. Entrei de gaiato nessa histria, completa, atribuindo as crticas de Requio a uma desavena com o ministro Paulo Bernardo, paranaense como o senador. Para evitar que eventuais resistncias polticas atrapalhem o plano da presidenta das concesses bilionrias, a ministra de Relaes Institucionais, Ideli Salvatti, reuniu lderes partidrios para ouvir Figueiredo na tera-feira. Se quiserem desfigurar a EPL por causa do Bernardo, troca o Bernardo, disse o executivo numa rara demonstrao de impacincia. No estou precisando de emprego.
 
A relao de Figueiredo com o poder e a poltica  peculiar. Filho de um subprocurador da Repblica e neto de presidente do Supremo Tribunal Federal, que renunciou ao posto em 1969, em protesto contra a ditadura, abandonou o sobrenome famoso Gonalves de Oliveira e optou pelo Figueiredo, da me. No colgio, ainda era conhecido como Bernardo Gonalves de Oliveira. Frequentou a mesma sala de Fernando Collor na escola pblica que reunia os filhos da elite brasiliense. Mas sua turma era outra, mais  esquerda, que disputou e ganhou do time de Collor as eleies no Centro Integrado de Ensino Mdio (Ciem). O tambm colega de colgio e jornalista Hlio Doyle o levaria a se filiar ao PDT, nos anos 80, e, depois, a migrar para o PT. Recentemente, Bernardo Figueiredo foi pesquisar e descobriu que no havia participado do recadastramento petista e, por isso, fora excludo da lista de filiados. Nunca tive militncia partidria, anota. Na ANTT, acolheu, a contragosto, diretores indicados por polticos. Na montagem da equipe da EPL, tem carta branca para optar por tcnicos. A estatal deve trabalhar com cerca de 150 funcionrios, trs vezes mais do que os 45 cargos de que dispe atualmente.
 
Figueiredo chegou a ser expulso em 1968 do Ciem, com outros 31 garotos, em meio a protestos. Mas, se as agudas diferenas entre direita e esquerda o apaixonavam na poca do colgio, hoje considera tolo o debate sobre se o governo Dilma Rousseff est ou no privatizando a economia. Vender ativo pblico, como foi feito no passado, no  a mesma coisa que fazer concesso de servios pblicos, mas tudo  privatizao, fala, esquivando-se do tema. Estamos trazendo a iniciativa privada porque a capacidade de investimento do governo no permitia que coisas fossem feitas com consistncia, resume. Para atrair investidores privados para o trem de alta velocidade  sua obsesso , Figueiredo convenceu o governo a bancar riscos que dizem respeito ao nmero de passageiros.  mais vantajoso tomar o risco e ter um preo mais barato da tarifa, raciocina. A depender da disposio do executivo e dos planos do governo, o trem-bala ser apenas o primeiro de uma srie.


7. MENSALO FOI COM O NOSSO DINHEIRO

A principal dvida que rondava o processo foi, enfim, elucidada: as trans aes ilcitas cometidas pelos mensaleiros incluram recursos pblicos
Izabelle Torres 

DESFALQUE NO ERRIO - O ministro Joaquim Barbosa durante o julgamento: a apropriao dos valores pela DNA consistiu em crime de peculato
 
O julgamento do mensalo confirmou na semana passada a tese de que o esquema montado pelo empresrio Marcos Valrio para atender aos interesses do PT desviou pelo menos R$ 73 milhes do Banco do Brasil. A concluso, anunciada numa surpreendente convergncia entre os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, respectivamente relator e revisor do caso, elucida uma das maiores dvidas que ainda rondavam esse processo e comprovam que as transaes ilcitas cometidas pelos mensaleiros incluram recursos pblicos. Os ministros afirmam que percias e laudos que constam nas mais de 50 mil pginas da ao penal no deixam dvidas de que o ento diretor de marketing do banco, Henrique Pizzolato, recebeu R$ 336 mil para autorizar pagamentos antecipados  DNA Propaganda. A agncia pertencente ao empresrio embolsou recursos do fundo Visanet, cujo principal acionista  o BB, com cerca de 32% dos recursos. As provas mostram que os recursos que alimentavam esses contratos saram, sim, do banco, resumiu Lewandowski.A descrio sobre o caminho percorrido pelo dinheiro  a narrativa de uma sequncia de contravenes montada por quem tinha influncia e poder no governo Lula. Segundo os dois ministros, Pizzolato antecipou repasses milionrios e aceitou documentos fraudados para justificar a apropriao indbita de recursos do fundo pela DNA. De acordo com os laudos periciais, a empresa de Marcos Valrio se apropriou tambm de pelo menos R$ 2,9 milhes que deveriam ter sido repassados ao Banco do Brasil. O empresrio declarou esses recursos como uma gratificao concedida a agncias de publicidade pela veiculao de propagandas. Todas as cobranas dos bnus deveriam ter sido restitudas ao Banco do Brasil por fora contratual, afirmou Joaquim Barbosa. A apropriao dos valores pela DNA consistiu, portanto, crime de peculato.
 
A ousadia da quadrilha do mensalo para maquiar o desvio do dinheiro do BB incluiu tambm a falsificao de notas fiscais. De acordo com o revisor da ao, foram mais de 80 mil notas fraudadas, em uma tentativa deliberada de dar aparncia lcita aos recursos. Marcos Valrio apropriou-se de dinheiro pblico em conluio com Henrique Pizzolato para se locupletar de valores pertencentes ao Banco do Brasil por meio de notas fiscais fraudadas, concluiu o revisor. Os argumentos de Lewandowski foram um desalento para advogados dos rus, que esperavam dele decises mais benevolentes. O prprio ministro admitiu que sua ideia inicial era absolver o ex-diretor do BB do crime de peculato. Mas, na vspera, ele decidiu revisar seu voto ao perceber que as provas apresentadas pela acusao mostravam claramente que ele valeu-se do cargo para receber vantagens.

PARCEIROS? - Ricardo Lewandowski ( esq.) na cola de Joaquim Barbosa: surpreendente convergncia no julgamento
 
Com o voto do revisor, j so dois os ministros que condenaram o ex-diretor de marketing pelos crimes de corrupo passiva, lavagem de dinheiro e peculato. Alm dele, Marcos Valrio e os scios Cristiano Paz e Ramon Hollerbach tambm foram condenados pelos ministros por corrupo ativa e peculato. At o momento, relator e revisor discordaram apenas sobre os crimes cometidos pelo deputado federal Joo Paulo Cunha (PT-SP), acusado pelo Ministrio Pblico de corrupo passiva, peculato duplo e lavagem de dinheiro. Barbosa acatou a denncia integralmente, enquanto o revisor votou pela absolvio do parlamentar e insistiu em que no h provas de que o petista se beneficiou diretamente do esquema ou que os servios de publicidade contratados pela Cmara dos Deputados quando ele era presidente no foram prestados.
 
Apesar do alinhamento dos votos dos dois ministros sobre a apropriao indevida de recursos pblicos pelo ncleo operacional do mensalo, as 14 sesses realizadas at agora pelo Supremo j deixaram claro que as divergncias ao longo do julgamento no sero poucas. Na quinta-feira 23, Lewandowski se irritou com a interpretao feita pelo presidente Carlos Ayres Britto, dando ao relator o direito de comentar seus votos por meio de rplicas. Para ele, Britto comeou a interpretar o regimento interno de forma a supervalorizar o papel de Barbosa e tem atendido a todos os pedidos do relator. Depois da sesso, dois ministros conversaram com o revisor e apoiaram sua reao. Um deles chegou a dizer que o mensalo, alm de mudar a rotina do Supremo, comeou a influenciar tambm as regras de procedimentos da corte.
 
Diante de um ambiente tenso e das diferenas expostas, um dos poucos consensos entre os ministros  que, confirmado o desvio de dinheiro pblico, a recuperao dos valores depender de uma nova etapa de aes na Justia. A ideia de alguns integrantes da corte  encaminhar a rgos de controle, como o Tribunal de Contas da Unio e a Controladoria-Geral da Unio, pedido para que recuperem os recursos pblicos apropriados indevidamente pelos mensaleiros. No ser uma tarefa fcil, tendo em vista que menos de 20% do que escoa pelo ralo da corrupo retorna ao errio.


8. QUEM SO OS GREVISTAS QUE DESAFIAM O BRASIL

A maior paralisao de servidores federais da histria impede que remdios cheguem aos hospitais, afrouxa a segurana nas fronteiras e gera prejuzo de R$ 1 bilho. Saiba como atuam, quanto ganham e os planos dos lderes do movimento
Claudio Dantas Sequeira e Adriana Nicacio 

Nos ltimos trs meses, o Pas vem enfrentando uma onda de greves que paralisa boa parte dos servios pblicos federais. Na contabilidade dos grevistas, 350 mil trabalhadores j cruzaram os braos  na sexta-feira 24, estimava-se que 200 mil permaneciam sem dar expediente  para reivindicar principalmente aumento salarial, no que j  considerada a maior greve da histria do servio pblico brasileiro. Nem as paralisaes na gesto Fernando Henrique Cardoso, as mobilizaes no incio do primeiro mandato de Lula e protestos setorizados, como os de controladores de voo em 2006, se comparam ao movimente atual, seja em durao, grau de planejamento e senso de oportunidade  ou oportunismo. A greve que comeou pequena em maio, com professores universitrios, logo absorveu os servidores administrativos das universidades e, em poucas semanas, abarcou dezenas de categorias. No fim de junho, quando aderiram  onda os funcionrios das agncias reguladoras, da Polcia Federal e da Polcia Rodoviria Federal, alm dos auditores fiscais, o governo se deparou com uma situao dramtica. A greve atingiu servios fundamentais e estratgicos, como a aduana, a vigilncia sanitria e a segurana de fronteiras. O prejuzo at agora ultrapassa R$ 1 bilho, mas os danos sociais so incalculveis.
 
Um exemplo dessas perdas est na reteno de mercadorias no Porto de Santos. Os funcionrios da Anvisa impediram que milhares de remdios essenciais contra o cncer e reagentes para o diagnstico da gripe H1N1 chegassem aos hospitais. A escassez de kits sorolgicos tambm obrigou alguns hospitais pblicos a descartar milhares de bolsas de sangue que perderam a validade. Em outro efeito colateral do movimento grevista, a suspenso da fiscalizao em rodovias e aeroportos serviu como espcie de sinal verde ao crime organizado. Na tera-feira 21, policiais rodovirios afixaram na Ponte da Amizade, em Foz do Iguau (PR), uma placa com a frase: Passagem livre para trfico de drogas e armas. Dentro do governo, a ao foi interpretada como um perigoso sinal de radicalizao.
 
O radicalismo como instrumento de negociao se tornou a principal marca do atual movimento grevista, que vem sendo conduzido por uma associao entre antigas lideranas do funcionalismo com uma nova gerao de sindicalistas. Vrias dessas estrelas emergentes tm pouca ou nenhuma tradio na luta sindical. Raramente saem de seus gabinetes para negociar e, por seus altos salrios e perfil empresarial, ganharam da presidenta Dilma Rousseff a alcunha de grevistas de sangue azul. Esse grupo  considerado a elite do funcionalismo pblico, com salrios de R$ 10 mil a R$ 25 mil, altamente qualificado, com cursos de ps-graduao, mestrado e at doutorado. Alguns sindicalistas  andam de carro importado e usam as redes sociais da internet para definir estratgias de ao. Lideranas tradicionais, insatisfeitas com os controles de gastos e a estabilizao no nmero de servidores do Executivo, aceitaram colocar-se a reboque da turma de sangue azul. Dessa maneira, tentam deter avanos que o governo vem implementando na gesto do funcionalismo pblico. A criao de fundos de penso que reduzem privilgios de algumas castas de servidores foi to mal recebida pelos sindicalistas quanto a legislao sobre transparncia pblica, que exps os vencimentos de cada um deles.

SEM TRABALHAR - Servidores federais, de diversas reas do governo, durante protesto em So Paulo: servios essenciais  populao foram afetados
 
Um dos principais lderes do grupo dos novos nobres grevistas chama-se Pedro Delarue Tolentino Filho, presidente do Sindifisco e representante da chamada Unio das Carreiras de Estado, que rene as 22 categorias mais bem remuneradas do Executivo, entre elas Banco Central, gestores pblicos, CVM e Itamaraty. Com 54 anos, o auditor fiscal  formado em economia e ganha R$ 19,4 mil por ms. Em junho, embolsou R$ 23 mil, em virtude de gratificaes. Mora na elegante Barra da Tijuca, no Rio Janeiro, sua mulher trabalha na iniciativa privada e a filha estuda em colgio particular. Delarue entrou para o sindicalismo na dcada de 1990 e rapidamente alcanou postos de comando no Sindifisco, cuja presidncia ele assumiu em 2007. O sindicalista no se preocupa com o rtulo de sangue azul, diz que os auditores no so apenas a elite do servio pblico, mas do Pas, e revela detalhes do planejamento da greve. Decidimos no ano passado que no aceitaramos mais enrolao do governo.
 
Outros lderes grevistas de sangue azul so lvaro Slon de Frana, que preside a Associao Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Anfip), e Wilson Roberto de S, do Sindicado Nacional dos Fiscais Federais Agropecurios (Anffa Sindical). Slon tem salrio bruto de R$ 21,5 mil e, com gratificaes, o valor alcana mensalmente R$ 25,2 mil. Roberto de S, por sua vez, recebe R$ 18 mil, que sobem para R$ 21,4 mil com os benefcios. Morador de So Gonalo, no Rio, passa a semana em Braslia, onde aluga uma quitinete e malha numa badalada academia. Tambm esto nesse grupo os presidentes da Associao Nacional dos Delegados da Polcia Federal (ADPF), Marcos Lencio Souza Ribeiro, da Associao Nacional dos Servidores Efetivos das Agncias Reguladoras (Aner), Paulo Rodrigues Mendes, e da Federao Nacional dos Policiais Rodovirios, Pedro da Silva Cavalcanti. Ribeiro ganha R$ 17,5 mil e Mendes, R$ 13,2 mil  at 2005, seu salrio era de R$ 3,5 mil. J Cavalcanti retira R$ 13 mil mensalmente, com gratificao inclusa, frequenta uma academia da Asa Sul e mora num bairro nobre do Recife. Para esses servidores, o sindicalismo est longe de ser uma atividade poltica. Alguns so at filiados a partidos, como o PT e PSB, mas no militam. A ausncia de um contedo poltico nas manifestaes  outra caracterstica desse novo sindicalismo, que busca, acima de tudo, resultados financeiros.
 
Todo o planejamento do atual movimento grevista obedeceu a princpios comuns da iniciativa privada. O financiamento das atividades foi pensado com antecedncia. Delarue, do Sindifisco, criou duas novas contribuies s para bancar o projeto de greve. Por seis meses, os filiados contriburam com 0,1% do salrio para um fundo de mobilizaes e 0,6% para o fundo de greve. Foram recolhidos R$ 17 milhes, que esto sendo usados para pagar os salrios de quem teve o ponto cortado pelo Executivo. Os fiscais agropecurios reunidos na Anffa tambm tiveram de dar uma contribuio a mais. Nos ltimos 11 meses, todos os servidores recolhem 10% de seus salrios para um fundo de emergncia. Em maio e junho, quando o movimento esquentou, esse percentual dobrou. Hoje, a associao tem um caixa de R$ 9 milhes para enfrentar o governo. Em agosto, 11.495 grevistas de todas as categorias sofreram baixas em seu contracheque.

PARADOS - Policiais federais (acima) no anncio da operao-padro

AMEAA - Em posto da Polcia Rodoviria, faixa diz passagem livre para trfico de drogas e armas
 
Com esse dinheiro, as lideranas sindicais esperam manter os protestos mesmo depois de 31 de agosto, prazo limite para o Ministrio do Planejamento fechar o oramento de 2013. Lideranas ouvidas por ISTO estimam entre R$ 100 mil e R$ 450 mil o custo mensal para manter a mobilizao, com gastos de pessoal, material de panfletagem, acampamentos e publicidade em rdios e tevs. Uma assembleia nos dias 1o e 2 de setembro definir os rumos da greve, mas j h previso de paralisao para 11, 12 e 13 do mesmo ms. Segundo os dirigentes sindicais, mesmo sem perspectivas de reajuste imediato, a presso vai continuar, e a segurana dos grandes eventos virou elemento de barganha nesse processo. At agora foram feitas paralisaes pontuais, diz o delegado Marcos Lencio Ribeiro, da ADPF. Mas teremos a Copa das Confederaes, a Copa do Mundo e a Olimpada. Delarue refora o poder dos grevistas. No temos dificuldade em organizar novas operaes-padro e paralisaes.
 
De parte do governo, a tendncia tambm  o endurecimento. Quem no aceitar o reajuste de 15,8% no ter nada, afirma um assessor da Presidncia. Para as categorias que aceitarem o acordo, novas negociaes s podero ocorrer em 2016. Pensando nisso, o governo fracionou o reajuste nos prximos trs anos. Outra estratgia para enfraquecer os grevistas  levantar as fragilidades de cada categoria, para uma negociao individual posterior. Na busca por informaes, o Palcio do Planalto infiltrou agentes da ABIN, da P2 (Polcia Militar) e do Exrcito nas assembleias e acampamentos. Tambm determinou o monitoramento das principais lideranas. Braslia virou uma praa de guerra de arapongagem, revela um agente. Francisco Sabino, vice-presidente da Fenapef, que rene os agentes da PF, confirma que descobriu arapongas oficiais infiltrados em reunies de sua entidade. Esto nos acompanhando em quase todos os Estados. Para burlar a espionagem, Sabino diz que seus colegas tm optado por se comunicar por rdio e evitado fazer reservas em hotis ou comprar passagens com antecedncia.
 
A motivao para manter os servidores mobilizados aps o dia 31 tem a ver tambm com demandas que vo alm da questo salarial, como reestruturao de carreira, equiparao salarial, definio de 1 de maio como data-base e uma poltica de reposio inflacionria, que ser embutida na discusso sobre a regulamentao das greves de servidores. A grande diferena dessa mobilizao para as anteriores  que conseguimos unificar uma pauta geral, ento o governo no tem como nos dividir e enfraquecer, afirma Josemilton da Costa, presidente da Confederao dos Trabalhadores do Servio Pblico Federal (Condsef). A entidade rene o maior nmero de servidores pblicos, cerca de 1,2 milho, chamados de carreiro, normalmente com salrios mais baixos. O prprio Josemilton, que uniu seu movimento ao dos de sangue azul, ganha pouco mais de R$ 3,2 mil como agente administrativo do Ministrio da Fazenda. Tem hbitos franciscanos, mora numa quitinete em Copacabana e despacha de um gabinete sem ar-condicionado.
 
Diferenas salariais  parte, Josemilton demonstra estar afinado com a estratgia de radicalizao dos demais lderes grevistas. Quem elegeu Dilma foram os mesmos movimentos sociais que elegeram Lula, diz. A resistncia em negociar pode lev-la ao isolamento.  um preo alto a pagar. A opinio do sindicalista  compartilhada pela psicloga Marinalva Barbosa, presidente da Associao Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes), principal entidade dos professores federais  de 59 universidades, 57 paralisaram suas atividades, assim como 33 dos 38 institutos tecnolgicos. O governo no sabe negociar, diz. Com 47 anos e doutorado na USP, ela recebe R$ 11 mil como professora associada na Universidade Federal do Amap. Para os sindicalistas, falta jogo de cintura por parte do governo. Esto insatisfeitos com o dilogo com o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidncia, e o secretrio de Relaes de Trabalho do Ministrio do Planejamento, Srgio Mendona. Interlocutor oficial do governo com os representantes dos servidores, a agenda de Mendona registra 180 reunies desde maro,  numa mdia de duas horas para cada encontro. Para o presidente da CUT, Vagner Freitas, a falta de uma sada  reflexo do esgotamento de um modelo de negociao.  preciso negociar com antecedncia, afirma. No adianta deixar para ltima hora. Enquanto o impasse no termina, milhes de brasileiros continuam sofrendo os efeitos perversos do movimento grevista. Reivindicar melhores salrios  legtimo, o que no  certo  deixar um Pas inteiro refm do movimento.
